segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Carvão Ativado em feridas crônicas

Lemos na Wikipédia que o carvão ativado "é um material de carbono com porosidade bastante desenvolvida" e "tem a capacidade de coletar selectivamente gases, líquidos ou impurezas no interior dos seus poros, apresentando portanto um excelente poder de clarificação, desodorização e purificação de líquidos ou gases."

Na realidade o carvão é carbono e torna-se ativado ao ser tratado com oxigênio que vai abrir uma infinidade de minúsculos poros, o que lhe confere uma imensa capacidade adsortiva.
Adsorver é a capacidade de reter outras substâncias, tais como toxinas, partículas e moléculas voláteis que provocam mal odor, etc. 
O carvão ativado vem sendo usado há muito tempo em situações emergenciais de envenenamento oral, na medida em que pode absorver grandes quantidades do veneno no aparelho digestivo. 
Médicos do antigo Egito já recomendavam o carvão para diversas enfermidades. Consta que Índios Norte Americanos usavam o carvão para infecções da pele.
O uso medicinal do carvão é anterior ao Papiro Egípcio Ebers de 1500 B.C. e com Hipócrates (400 B.C.) o seu uso estava indicado em epilépticos e doentes com Antraz.
Após o processo de ativação do carvão ( 1870 a 1920) as publicações médicas passaram a divulgar o uso do carvão ativado para distúrbios intestinais e como antídoto nos casos de envenenamento.
Atualmente o carvão ativado passou a fazer parte do arsenal de enfrentamento das feridas crônicas, sendo utilizado como desinfetante e desodorizador.
A experiência de quem lida com o tratamento das feridas crônicas deixa muito claro os efeitos negativos provocados pelo mal odor na qualidade de vida desses pacientes.
Ouvimos muitos relatos de pacientes envolvendo essa questão na vida social e familiar.
De forma que neutralizar esses odores é uma tarefa inadiável. E a capacidade adsortiva do carvão ativado pode neutralizar essas partículas voláteis emanadas das feridas.
Não cabe aqui descrever os processos metabólicos envolvendo os tecidos necróticos, bactérias dos mais diferentes tipos e outros fenômenos responsáveis pelo mal cheiro de certas feridas. É sabido que a presença de infecção por aeróbios e anaeróbios está associada ao mal odor. Em algumas situações, nem mesmo a troca mais frequente dos curativos consegue neutralizar o odor indesejável.
Portanto, o combate à infecção, de todas as maneiras disponíveis, é mandatório nesta questão.
Enquanto a causa do mal odor não estiver resolvida, os curativos baseados na tecnologia do carvão ativado e na sua capacidade de adsorver partículas voláteis, mal cheirosas ou não, podem melhorar muito a vida social de nossos pacientes.

Quais são esses curativos ?

  1. ACTISORB (Systagenix) - Pelo que sabemos, parece ter sido um dos primeiros curativos baseados em carvão ativado. O Actsorb Plus 25 contém prata, o que potencializa a atividade antibacteriana do produto.
  2. Curatec Carvão Ativado com Prata Recortável
  3. CarboFLEX® (Convatec)
  4. Carbonet (Smith&Nephew) 


Dos curativos citados, nossa experiência maior é com o Actisorb Plus 25 em seus três tamanhos.

Diferentemente do Curatec, a Actisorb não pode ser cortado.

Todos eles podem ser aplicados sob terapia compressiva.
O da Curatec é mais fácil de ser aplicado em feridas mais fundas ou cavitárias, pois é mais
  
 maleável e pode ser cortado.

O Actsorb requer mais cuidados para evitar extravasamento do conteúdo por danos à embalagem.
Ao fazer a retirada do curativo, que pode ficar até sete dias, convém umedecer bastante com soro fisiológico para evitar danos ao leito da ferida.
Em feridas muito exsudativas a frequência de

troca deve ser reavaliada ou a associação com
outras coberturas absorventes pode ser aplicada.








Na figura à direita podemos ver uma associação da cobertura de carvão ativado (Actsorb Plus) com outra cobertura absorvente de espuma (Biatain AG).
Pode ser uma boa opção para feridas em que o controle da presença bacteriana e do exsudato sejam importantes.
Neste caso trata-se de uma ferida por Fasciite Necrotizante já em fase resolutiva.



  1. Van Toller S. "Psychological consequences arising from the malodours produced by skin ulcers", Proceedings of 2nd European Conference on Advances in Wound Management, Harrogate 1992, Macmillan Magazines Ltd, Ed. Harding K.G. , Cherry G. , Dealy C. , Turner T. 1993, 70-71 
  2. Butcher G. , Butcher J.A. , Maggs F.A.P. "The treatment of malodorous wounds", Nursing. Mirror , 1976, 142, 76 .

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Polineuropatia Amiloidótica & feridas crônicas

A Polineuropatia Amiloidótica Familiar (PAF) é uma neuropatia sensorial e motora, genética, hereditária, multissistêmica, também conhecida como "doença dos pézinhos". Está catalogada entre as doenças raras. 
Para informações mais detalhadas sobre a PAF, que não é o foco deste site, sugerimos uma visita a Associação Brasileira de Paramiloidose (Aqui).
Esta polineuropatia leva ao comprometimento dos nervos sensoriais dos membros inferiores, tal como acontece também nos pacientes diabéticos. 
Por esta razão os portadores de PAF devem ter cuidados especiais com os pés, na medida em que a perda da sensibilidade diminui a capacidade de defesa contra os traumas. 
São raras as publicações sobre feridas crônicas em membros inferiores em portadores dessa polineuropatia.
A Dra. Maria Helena Miranda Rodrigues Porto em sua tese de Mestrado (Leia aqui) diz:

"As lesões cutâneas são encontradas nos estádios mais avançados da doença. As mais frequentes são a xerose, a dermatite seborreica, as lesões traumáticas e queimaduras, o acne, as úlceras perfurantes plantares (pela perda da sensibilidade álgica) e as onicomicoses. (...)
Relativamente à perda de sensibilidade, é importante informar sobre a necessidade de evitar fontes de calor e recomendar sobre o calçado (não andar descalço e utilizar sapatos confortáveis). Estas medidas podem evitar o aparecimento de feridas graves, causas de morbilidade em doentes neurológicos."

Conforme mostramos nas imagens o tratamento das feridas crônicas nos portadores de PAF, decorrentes dos traumas por repetição e/ou dos pontos de pressão nos pés obedece aos mesmos critérios que adotamos para os pés diabéticos:
  • higiene rigorosa dos pés
  • calçados apropriados
  • proteção dos pontos mais vulneráveis
  • curativos especiais visando otimização do leito da ferida, controle de infecção (quando houver) e balanceamento do exsudato.


quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Fasciite necrotizante

Fasciite é um evento inflamatório que afeta qualquer fáscia. 
Fáscia é uma membrana conjuntiva fibrosa que pode ser encontrada em diferentes topografias, na maioria das vezes envolvendo feixes musculares, cobrindo tendões, ligamentos, e revestindo muitas estruturas e cavidades corporais. 
Temos fáscias por todas as partes de nosso corpo e. dependendo de sua localização, pode receber variadas denominações: fáscia cribiforme, plantar, cervica, crural, etc.
Necrotizante é aquilo que provoca necrose, ou seja, morte de tecidos em alguma região do nosso corpo.
Logo, Fasciite Necrotizante(FN) quer denominar a formação de tecido necrosado em decorrência de um processo inflamatório que, por sua vez, é consequência da invasão por microrganismos patogênicos (infecção).
A fáscia que nos interessa aqui é a fáscia superficial e profunda que revestem todo o corpo e estão imediatamente sob a pele. Vamos chamá-la de FÁSCIA SUBCUTÂNEA (FS).
Uma das características de Fasciite Necrotizante (FN) é a rapidez de propagação da infecção. E a velocidade dessa propagação, segundo Dr. Richard F. Edlich,MD, é diretamente proporcional à espessura da camada subcutânea e se propaga ao longo do plano fascial.
A FN recebe algumas outras denominações, a saber: gangrena estreptocócica hemolítica, fasciite supurativa, celulite necrotizante e outras. Quando afeta a região perineal e/ou escrotal recebe a alcunha de Gangrena de Fournier.
Algo em torno de 30% dos afetados por FN são diabéticos.
Desde uma simples picada de inseto até intervenções cirúrgicas podem desencadear a invasão bacteriana levando à FN. 
O Estreptococo Beta-hemolítico do grupo A é considerado o principal agente dessa infecção e muito frequentemente está em associação com outros microrganismos patogênicos.
O diagnóstico tardio da FN pode ser fatal. 
Portanto a suspeita clínica deve se transformar em ações imediatas para que a infecção não evolua para danos sistêmicos irreversíveis. Não foi à toa que vítimas da FN criaram a National Necrotizing Fasciites Foundation, onde contam suas estórias e compartilham suas experiências.


Relato de caso

Sexo masculino, 55 anos, diabético, sofreu "ferroada" de animal por ocasião de pescaria. Informa que a ferroada pode ter sido por uma arraia de água doce. Evoluiu com dores muito fortes no local, inchação da perna e formação de ferida.



Figura 1. Aspecto da ferida por ocasião da primeira consulta. Apesar do aspecto sugestivo de ferida venosa, o componente álgico e a rapidez da evolução para pior despertaram a suspeita de Fasciite Necrotizante.









Figura 2. Ferida após amplo desbridamento dos tecidos necrosados até a fascia. Observa-se a presença de veia ocupada por trombo, provavelmente séptico. A demora na limpeza cirúrgica pode significar a disseminação da infecção que pode evoluir para sepsis.








Figura 3. Quatro sessões de curativo com terapia por pressão negativa ambulatorial foram realizadas usando o sistema da Coloplast
ExtriCare® Negative Pressure Wound Therapy






Figura 4. Ferida em fase final de cicatrização.
A suspeita diagnóstica precoce foi determinante para a obtenção do resultado, não permitindo o agravamento da lesão e de sua disseminação sistêmica.

domingo, 18 de agosto de 2013

Proteases, proteinases e metaloproteinases da matriz

Quem se dedica ao tratamento das feridas crônicas de difícil cicatrização, especialmente aquelas localizadas nos membros inferiores, vem se deparando com numerosas publicações que relatam a importância das proteases ou proteinases no processo de cicatrização.

Abaixo reproduzimos a definição que encontramos na Wikipédia:

Proteases (proteinases, peptidases ou enzimas proteolíticas, EC 3.4) são enzimas que quebram ligações peptídicas entre os aminoácidos das proteínas. O processo é chamado de clivagem proteolítica, um mecanismo comum de ativação ou inativação de enzimas envolvido principalmente na digestão e na coagulação sanguínea. Como uma molécula de água é utilizada no processo, as proteases são classificadas como hidrolases.

No que diz respeito à cicatrização parece ter importância muito especial o grupo das metaloproteinases da matriz (MMPs). Trata-se de enzimas com função específica de degradar diversos componentes da matriz extracelular(MEC). Em outras palavras: são enzimas com capacidade para “quebrar” ou clivar elementos do tecido conjuntivo.
É sabido que a MEC é um complexo de proteínas fibrilares, proteoglicanos e glicosaminoglicanos. Este complexo é essencial para a arquitetura, fisiologia e biomecânica dos tecidos humanos.  Essa MEC é formada por uma rede de colágeno (especialmente tipos I e III), elastina, fibronectina e laminina, que são proteínas que “garantem a estabilidade e integridade estrutural, a flexibilidade e a adesão celular no ambiente da MEC”.

Dr. Agren MS e cols. (1) mostra que a atividade das proteases é parte essencial do reparo tecidual. Na cascata normal da cicatrização elas quebram proteínas e elementos estranhos da MEC danificada de tal forma que novos tecidos possam se formar e a cicatrização progrida de forma ordenada. Entretanto, e esta parece ser a questão mais importante, quando a atividade dessas proteases está exacerbada o delicado equilíbrio se altera e pode provocar danos descontrolados  na MEC, nos fatores de crescimento e demais receptores, levando a mais destruição dos tecidos normais. Níveis elevados de proteases perpetua a degradação da MEC e de outras proteínas, promovendo assim o prolongamento do estágio inflamatório da cicatrização que, por sua vez, não avança para a fase proliferativa(2).

A cada dia mais evidências vão se acumulando sugerindo que elevados índices de proteases (mais especificamente as metaloproteases ou metaloproteinases) estão presentes em feridas que não cicatrizam (3;4).

O desafio maior no estudo das MMPs está sendo entender o papel dessas enzimas nas situações patológicas, entre elas as feridas crônicas, e encontrar seus inibidores com capacidade de sucesso na prática clínica.

A atividade das MMPs é balanceada pelos seus ativadores (pro-enzimas) e/ou por seus inibidores, as denominadas TIMPs (Inibidores Teciduais das Metaloproteinases da Matriz). Até o momento os estudos revelam a existência de quatro desses inibidores em humanos.

Como já se sabe que as MMPs são dependentes do metal ZINCO (donde metaloproteinase) o mais importante requisito estrutural de um inibidor é sua capacidade de quelação do íon zinco. Aguardemos os resultados dos estudos pré-clínicos de avaliação desses inibidores das MMPs. Sabemos que boa parte desses estudos são dirigidos para portadores de artrites e câncer. De fato, ainda há mais dúvidas que certezas.

Para se ter uma ideia da abrangência desses estudos, na insuficiência venosa crônica (IVC) os níveis elevados de ferro decorrente do extravasamento de hemácias para o espaço intersticial tem sido considerado como um estímulo para a overdose de MMPs presente nas úlceras venosas(5). Além da produção de MMPs decorrente da ativação do sistema imune, as próprias bactérias são também produtoras dessas metaloproteases. Ou seja, os conhecimentos das proteases como marcadores envolvidos no processo da cicatrização das feridas ainda tem um longo caminho a trilhar.

O INTERNATIONAL CONSENSUS sobre O PAPEL DAS PROTEASES NO DIAGNÓSTICO DAS FERIDAS CRÔNICAS, em 2011, considerou importante aprender o conceito de equilíbrio e desequilíbrio na cicatrização, ou seja, o equilíbrio entre síntese e degradação da MEC (Matriz Extracelular). Para os autores do Consenso o aprendizado mais importante se resume a quatro pontos:

  1. As proteases são importantes para a organização e remodelação da nova MEC. Há uma explosão de atividade das proteases no início da cicatrização das feridas agudas. Na cicatrização normal esta atividade alcança seu pico nos primeiros dois dias e vai declinando para níveis mínimos em uma semana(6).

  1. Os estímulos que podem prolongar a atividade das proteases incluem a presença de tecido danificado,
    materiais estranhos, bactérias e biofilmes.

  1. Se as ação das proteases permanecem muito elevadas, elas começam a degradar e destruir o MEC, causar danos ao tecido recém-formado, prejudicar o leito da ferida e atrasar a cicatrização.

  1. Condutas que possam reduzir quantitativamente as proteases nocivas e corrigir o desequilíbrio ajudarão na cicatrização (7).

Portanto, “quando todos os cuidados estão otimizados, não há infecção e, mesmo assim, uma ferida não cicatriza é muito provável que persiste a fase inflamatória com altos índices de atividade das MMPs impedindo a progressão para o estágio proliferativo da cicatrização.”

Na fase atual do que se vem estudando, pesquisando e publicando sobre esse assunto, devemos estar atentos aos desdobramentos que possam ser utilizados na prática clínica. A Systagenix, por exemplo, lançou o WoundChek Protease Status que se propõe a quantificar o nível de atividade das proteases (EPA – Elevated Protease Activity). Ainda não temos experiência prática com esta novidade, nem de seu custo-benefício.

Por outro lado, parece ainda decepcionante o resultado dos ensaios com produtos que possam agir como inibidores da atividade da proteases.

Aguardemos.
José Amorim de Andrade MD e Maria de Lourdes Seibel MD
 

Algumas leituras que recomendamos:
1. Agren MS, Mirastschijski U, Karlsmark T, Saarialho-Kere UK. Topical synthetic inhibitor of matrix metalloproteinases delays epidermal regeneration of human wounds. Exp Dermatol 2001; 10(5): 337-48
2. Gibson D, Cullen B, Legerstee R, et al. MMPs Made Easy. Wounds International 2009; 1(1): Available from http://www.woundsinternational.com
3. Beidler SK, Douillet CD, Berndt DF, et al. Multiplexed analysis of matrix metalloproteinases in leg ulcer tissue of patients with chronic venous insufficiency before and after compression therapy. Wound Repair
Regen 2008; 16(5): 642-48.
4. Ladwig GP, Robson MC, Liu R, et al. Ratios of activated matrix metalloproteinase-9 to tissue inhibitor of matrix metalloproteinase-1 in wound fluids are inversely correlated with healing of pressure ulcers.
Wound Repair Regen 2002; 10(1): 26-37.
5. Zamboni P, Scapoli G, Lanzara V, et al. Serum iron and matrix metalloproteinase-9 variations in limbs affected by chronic venous disease and venous leg ulcers. Dermatol Surg 2005; 31(6): 644-49
6. Herrick SE, Sloan P, McGurk M, et al. Sequential changes in histologic pattern and extracellular matrix deposition during the healing of chronic venous ulcers. Am J Pathol 1992; 141(5): 1085-95.
7. Smeets R, Ulrich Dm Unglaub F, et al. Effect of oxidised regenerated cellulose/collagen matrix on proteases in wound exudate of patients with chronic venous ulceration. Int Wound J 2008; 5(2): 195-203.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Mel de abelha em feridas - Medihoney

Com certa frequência somos questionados sobre a utilização do mel de abelha no tratamento das feridas. Na verdade a utilização medicinal do mel tem uma história de muitos milénios. Uma simples consulta na internet nos fornecerá dados dando conta do uso do mel para tratamento de problemas digestivos, infecções e feridas crônicas desde o ano 400 AC.
As propriedades antimicrobianas do mel estão documentadas na literatura médica desde o século 19 e o seu uso no tratamento das feridas crônicas tem publicações há mais de 50 anos. O advento dos antibióticos, particularmente a penicilina, diminuiu o interesse pela utilização do mel no combate às infecções ïn situ", deixando o seu uso no territórios dos tratamentos ditos populares.
Na medida em que o uso abusivo e generalizado dos antibióticos evoluiu para o caos da resistência bacteriana que não sabemos aonde vai nos levar, resurge no meio científico um renovado interesse pelo uso do mel no tratamento das feridas crônicas.
Se, por um lado, muitos trabalhos publicados mostram resultados positivos do uso do mel nas diferentes fases da cicatrização, por outro há ainda muita confusão sobre que tipo de mel tem essa capacidade de otimizar a evolução do processo cicatricial.
O mel de Manuka vem despertando especial interesse nas pesquisas. Trata-se de um mel que se origina da polinização das flores de Manuka ( Leptospermun), árvore nativa da Nova Zelândia e Austrália.
Este mel tem ação antibacteriana diferenciada de outros tipos de mel agindo sobre a formação de biofilmes que deterioram a cicatrização.
Além da atividade antibacteriana, acredita-se que o mel, segundo trabalhos já publicados, também:

  • tem efeito estimulador da imunidade
  • age como anti-inflamatório
  • promove desbridamento autolítico
  • cria ambiente úmido no leito da ferida

A título de exemplo, o MEDIHONEY é o único curativo baseado em mel aprovado pelo FDA (US Food and Drug Administration) e tem apresentações combinadas com alginato e em formato hidrocolóide, além de outras.
Não dispomos, ainda, desse produto para uso no mercado brasileiro.

Pelo avanço das pesquisas já podemos acreditar nas múltiplas atividades biológicas do mel de abelha.

O Dr. Peter Molan, PhD, e dedicado estudioso do tratamento das feridas, afirma: "Cada um dos mecanismos que promovem a cicatrização pode ser encontrado separadamente nos produtos farmacológicos disponíveis, mas no mel todos eles estão presentes e atuam de forma sinérgica para otimizar o processo cicatricial."

Muito embora ainda estejamos carentes de evidências solidificadas por estudos comparativos randomizados sobre este assunto, podemos admitir que o mel, especificamente o mel de Manuka, já pode ser considerado importante ferramenta no tratamento das feridas crônicas.

Mais sobre esse assunto pode ser encontrado em
Aletha Tippett MD, onde a doutora mostra um pouco de sua experiência com o Medihoney.

domingo, 8 de abril de 2012

Dor em feridas crônicas

O fato de estar com uma ferida crônica representa, por si só, um enorme fardo a ser suportado por seus portadores. Carregar uma ferida crônica significa perda considerável na qualidade de vida, especialmente quando se trata de uma ferida dolorosa ou produtora de secreção abundante e frequentemente exalando odor desagradável, ou todas essas coisas juntas.
A dor, a secreção abundante e o mal cheiro são desafios permanentes para os profissionais que se dedicam às patologias que podem cursar com a formação dessas feridas. São sinais e sintomas que exigem avaliação exaustiva para a detecção de suas causas e dos fatores agravantes. Por estas razões, além de outras, a industria de curativos vem se esmerando na tentativa de oferecer alternativas para esses desafios.
A dor talvez seja. entre os sintomas, o que mais deteriora a qualidade de vida desses pacientes. Mais da metade da população com feridas crônicas – seis em cada 10 - padece de dor. não apenas por ocasião das trocas do curativo, mas que persiste nos intervalos dessas trocas. Varia de dor incomodativa a dor absurdamento intensa e aguda, levando esses pacientes ao uso continuado dos analgésicos, sedativos, antiinflamatórios, etc.
As feridas decorrentes de vasculites, da hipertensão arterial crônica, de determinadas colagenoses, costumam estar entre as feridas mais dolorosas. As infecções das feridas, de qualquer etiologia, também parecem evoluir com dor muito intensa.
Recentemente, estamos bem impressionados com o curativo de espuma de poliuretano, hidrofílica, macia e não aderente impregnada com o anti-inflamatório não esteróide (AINE) IBUPROFENO na concentração informada de 0,5mg/cm2. No quesito dor, os pacientes tem referido melhora significativa e diminuição ou eliminação do uso dos analgésicos e/ou anti-inflamatórios orais. Convém lembrar que a dose recomendada diária de Ibuprofeno oral vai de 1200 a 3200mg. Este fato é interessante na medida em que em uma espuma de 10x10cm teremos algo em torno de 5mg do princípio ativo, ou seja, uma dose bem inferior à dos produtos para ingestão oral.
Portanto, poder contar com a capacidade de absorção dos curativos de espuma em feridas exsudativas aliada com a liberação de um anti-inflamatório é muito animador.


Biatain Ibu nos tamanhos 10x10 e 10x20cm
Imagem copiada de veja aqui










Fácil de aplicar, a espuma Biatain Ibu administra bem o exsudato. O produto pode ser cortado, devendo-se ter o cuidado de deixar bordos de 1,5 a 2,0cm extrapolando os bordos da ferida. Dependendo do volume de exsudato, pode ser mantido no local por até 7 dias. Percebemos que sua retirada tem sido indolor e aparentemente atraumática para o leito da ferida. A absorção vertical do exsudato, como deve ocorrer com os bons curativos de espuma, poupa a pele do entorno. Até o momento não tivemos reações indesejáveis ao produto.













O estudo duplo-cego que cito abaixo tem informações interessantes sobre o assunto.

Int Wound J. 2007 Apr;4 Suppl 1:24-34.
Less pain with Biatain-Ibu: initial findings from a randomized, controlled, double-blind clinical investigation on painful venous leg ulcers.
Gottrup F, Jørgensen B, Karlsmark T, Sibbald RG, Rimdeika R, Harding K, Price P, Venning V, Vowden P, Jünger M, Wortmann S, Sulcaite R, Vilkevicius G,Ahokas TL, Ettler K, Arenbergerova M.

Source

University Centre for Wound Healing, Odense University Hospital, Odense, Denmark.

OBSERVAÇÃO: Esta publicação não tem conflito de interesses. 
Dr. José Amorim de Andrade e Dra. Maria de Lourdes Seibel

domingo, 20 de novembro de 2011

Alginatos

O alginato é um derivado da parede celular de certas algas marinhas (algas castanhas ou marrons) encontradas em algumas costas marítimas do planeta (imagem abaixo). Portanto essas algas são a matéria prima para a produção dos alginatos e sua transformação em ácido algínico.

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Black Head, Co. Clare, Ireland; exposed fronds at ELWS. 28 Apr 2006. Michael Guiry. © Michael Guiry (mike.guiry@nuigalway.ie)
Encontrada em grande quantidade na costa da Noruega, Escócia e Iralanda)

Os curativos baseados em alginato são citados na literatura há mais de três décadas. Entretanto são raros os estudos randomizados a respeito de sua utilização. Os cirurgiões plásticos Attwood em 1989 e O’Donoghue em 1997 publicaram que os curativos de alginato foram superiores aos demais quando utilizados sobre áreas doadoras de enxertos cutâneos.

Quando usar

Os alginatos estão entre os curativos de escolha para as feridas que produzem exsudato moderado ou abundante. A conhecida ação hemostática dos alginatos também torna sua indicação relevante para as feridas com leito sangrativo ou após os desbridamentos.
A grande capacidade absortiva do alginato asssociada ao seu formato maleável e de fácl manipulação, podendo ser adaptado às mais diferentes topografias e conformações anatômicas, torna seu uso nas feridas cavitárias bastante animador. O ambiente fisiologicamente úmido proporcionado pela característica biodegradável dos alginatos é referido como um estimulante da granulação do leito ulcerado, bem coo do desbridamento autolítico.
A gelificação do alginato (consistência de gel) no leito da ferida torna a sua retirada muito fácil e indolor por ocasião da troca, bastando para tal uma simples irrigação com solução salina. Os pacientes costumam confundir o aspecto “lamacento” apresentado pelo alginato gelificado e de cor acastanhada como sinal de piora ou de infecção da ferida.   

Portanto, suas principais indicações são:
  • Feridas exsudativas, infectadas ou não;
  • Áreas doadoras de pele
  • Queimaduras
  • Feridas com leito hemorrágico
  • Feridas cavitárias (preenchimento dos espaços mortos)
Dica importante: não é conveniente a utilização de curativos baseados em alginatos em feridas secas ou com muito pouco exsudato, o que poderá provocar ressecamento indesejado do leito da ferida como também do próprio alginato. Isto pode tornar sua retirada difícil e traumática. Portanto, muito cuidado com as feridas decorrentes de enfermidade vascular isquêmica.
Convém lembrar que as superficies ósseas, articulares e tendinosas não devem receber coberturas de alginato.
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Fig.1 – cobertura de alginato com prata mostrando sua saturação e gelificação após 4 dias de aplicado em coto de amputação
Fig.2 – Excelente granulação e epitelização
Fig.3 – Aplicação do alginato nas lesões tunelizadas residuais
Fig.4 – Ferida com cavidade
Fig.5 – Aplicação de aginato sem prata no leito e cavidade
Fig.6 – Excelente epitelização

Os curativos de alginato devem ser aplicados em contato direto com a ferida, ou seja, é um curativo primário; donde a necessidade do curativo secundário que, entre outras coisas, se encarregará de mantê-lo no lugar. A escolha do curativo secundário obedecerá a uma avaliação criteriosa das características da ferida: localização, diagnóstico etiológico, necessidade ou não de oclusão, necessidade ou não de terapia compressiva, etc.
Se a ferida evolui com diminuição importante do exsudato de tal forma que o alginato não mais gelifica ou passa a ficar muito aderido ao leito ulcerado, deve-se descontinuar a sua aplicação e dar continuidade com outro tipo de curativo primário que atenda às necessidades de hidratação do leito da ferida.

Curativos baseados em alginato:

  • Suprasorb® A - (Alginato de cálcio) - Lohmann & Rauscher (L&R)
  • Suprasorb® A + Ag (Alginato de cálcio e prata) - Lohmann & Rauscher (L&R)
  • Curatec Alginato de Cálcio e Sódio - 10 cm x 10 cm - CURATEC
  • Kaltostat® - Curativo de Alginato de Cálcio e Sódio
  • Askina® Calgitrol® Ag (com cálcio, prata e sódio) - Laboratórios B. Braun S.A.
  • SeaSorb Soft Curativo de Alginato (alginato de cálcio e carboximetilcelulose) - COLOPLAST
  • SILVERCEL® Hidroalginato com Prata - © Systagenix
  • Sorbalgon®  e Sorbalgon® Ag - Hartmann
  • Biatain Alginato AG - (alginato de cálcio e carboximetilcelulose + prata) - COLOPLAST


Dr. José Amorim de Andrade
Dra. Maria de Lourdes Seibel

Ler mais sobre o assunto em: